terça-feira, 23 de agosto de 2011

"Loulou de la Falaise"

Yves Saint Laurent era um homem que amava as mulheres. Sua mãe, sua irmã e suas (pouquíssimas) amigas. Essas últimas com devoção e afeto raros de ver. Entre as que tiveram o privilégio de ter o grande gênio da moda do século 20 como amigo íntimo, está Loulou de la Falaise.

Betty Catroux, Saint Laurent e Loulou em looks safari

Nascida Louise Vava Lucia Henriette de la Falaise, em 1948, em Paris, Loulou se mudou com a família para Londres aos 10 anos e desde então rodou o mundo. Depois do divórcio dos pais, o conde francês Alain de la Falaise e a modelo inglesa Maxime Birley (manequim de Elza Schiaparelli), ela e seu irmão foram matriculados em um internato em Sussex, Inglaterra, de onde foi expulsa por mau comportamento. A próxima parada, em outro internato, em Gstaad, Suíça, também não durou. "Era muito travessa quando criança", costuma declarar Loulou à mídia. Sem se adequar a rigorosas instituições de ensino, a jovem foi morar com a mãe e o padrasto em Nova York, onde logo caiu nas graças de Diana Vreeland, na época editora da Vogue América.

A profissão de modelo, no entanto, não a encantou e Loulou voltou a fazer as malas. Partiu para Londres, onde trabalhou como editora júnior da revista Queen e conheceu Desmond Guiness, um historiador de arte, com quem ficou casada por um breve período. Depois da separação, mais uma ponte aérea: Loulou voltou a Nova York e caiu na balada. Era a época de ouro do Studio 54 e ela dançava da 1 às 7 da manhã. Nessa época, conheceu Robert Mapplethorpe, que ainda pintava, e fez a ponte entre o promissor artista e seu padrasto, John McKendry, curador de fotografia do MET (Metropolitan Museum of Modern Art), que teve o poder de alavancar sua carreira.

Foi também em uma de suas noitadas na Big Apple que Loulou conheceu Saint Laurent, já um renomado estilista. Seu estilo único, somado à sua inteligência, perspicácia e bom humor, conquistou Yves.

We always have Paris

De volta a Paris, cidade onde mora até hoje, Loulou trabalhou três décadas com Saint Laurent. Ao lado dele e da amiga Betty Catroux, formava a tríade mais animada da França na década de 1970. A lendária foto da inauguração da loja na Rive Gauche, butique pioneira do prêt-à-porter, em Saint-German-de-Près, em 1966, é a prova da cumplicidade e da alegria que eles compartilhavam como amigos. Na deliciosa imagem, os três usavam, cada um a seu estilo, looks de inspiração safári, a mesma linhagem estética do mitológico e recém-criado saharienne.

A designer entre Kate Moss e Betty Catroux, em 2010

Estilo, aliás, é uma coisa que nunca faltou a Loulou de la Falaise. Suas marcas registradas são o uso destemido de cores, os acessórios de cabeça e os sapatos inusitados. Ela foi uma das primeiras parisienses a usar lenços e turbantes, inf luenciando Saint Laurent a mergulhar na moda étnica. Teve também sua fase andrógina, quando tosou os cabelos e aderiu às calças masculinas. Coincidência ou não, foi nessa época que YSL criou o smoking feminino, uma verdadeira revolução na moda.

Sobre seu visual único, ela declarou recentemente: "Saber sonhar é a melhor forma de ter um estilo particular. Vejo uma pluma de pássaro em um parque e coloco no chapéu pensando em criar uma estética meio Robin Hood. Um elemento puxa o outro e você acaba inventando algo novo". Outro ponto importantíssimo é o uso das cores. "Cor é vida. Um look preto é fácil, mas não tem uma boa dose de ousadia." Trendsetter, Loulou costuma afirmar ainda que nasceu na época certa. "Vivenciei o nascimento da música pop, vivi o começo de novas modas e vi o início de uma época de livre expressão."

Sempre ativa, apesar de ter inf luenciado Yves Saint Laurent, ela nunca se encaixou no título de musa. "Musa a meu ver é alguém incrivelmente glamourosa e passiva. Eu sempre trabalhei duro. Meu expediente no ateliê YSL era intenso, das 9 da manhã às 9 da noite."

Em 2004, Loulou lançou sua própria marca de acessórios, que tem duas charmosas lojas em Paris, uma onde fica seu escritório, na rue de Bourgogne, no 7ème arrondissement, e outra na rue Cambon, ao lado da Chanel. A marca também está à venda em lojas online e, recentemente, De la Falaise fez uma coleção exclusiva para a über-multimarcas parisiense L’Eclaireur. Inspirada em arte, suas criações têm estética do pintor austríaco Gustav Klimt, Muranos italianos e formas da natureza e se encaixam na tendência de acessórios grandes e coloridos. Feliz como quando tinha 20 anos, hoje, aos 61, Loulou mora com o segundo marido, Thadée Klossowski, e gosta de dançar rock’n’roll "porque é divertido e faz um bem danado ao corpo". No apartamento dos dois, o décor ref lete sua personalidade: boêmia, artística, eclética e colorida. Como o amigo e parceiro Saint Laurent tanto apreciava.

Fonte: Elle