terça-feira, 24 de maio de 2011

"Explosão Fashion"

Há 30 anos, dois japoneses sacudiram as passarelas e colocaram em moda uma estética batizada, na época, de Hiroshima Chic.
Paris, 1981. Babados, cores fortes, volumes, sofisticação. Ode à grife, com logotipos se reproduzindo na velocidade da luz. De repente, fez-se a escuridão. Do Japão, dois novatos nas passarelas parisienses, Yohji Yamamoto e Rei Kawakubo, chez Comme des Garçons, mostram coleções que, à primeira vista, pareciam inconcebíveis.

Sobreposições, assimetrias, estética homeless, com costuras inacabadas e à vista e muito, muito preto - cor que Yamamoto costuma descrever como "modesta e arrogante ao mesmo tempo". Incrédulos, alguns críticos batizaram o movimento de Hiroshima Chic, em uma referência ao bombardeio americano à cidade japonesa. Outros perceberam a força made in Japan. "A moda francesa tem seus mestres: os japoneses" foi a manchete do jornal Libération no dia seguinte aos desfiles. "As coleções deles realmente foram um choque. Eles fugiram do tradicional requinte parisiense e lançaram a ideia do pauperismo na moda", afirma João Braga, professor de história da moda da FAAP (Fundação Armando Álvares Penteado), em São Paulo.




Yohji Yamamoto, o início

Roupa-poesia: costuras aparentes, caimento pesado e sobreposição.

Trinta anos depois e a força radioativa ressurge graças a uma exposição no Victoria and Albert Museum, em Londres, em homenagem a Yohji. O estilista, nascido em 1943, em Tóquio, órfão de pai (morto na guerra) e filho de uma costureira (sempre de preto, Freud explica), é certamente um dos criadores mais importantes do século 20. E olha que ele tentou fugir do seu destino. Cursou, a pedido da mãe, a faculdade de direito. Mas não se adaptou e, a contragosto dela, decidiu que seu futuro estava nos tecidos e nas formas que tanto ama. Entrou então para a famosa escola de moda Bunka - era o único menino da turma - e, em 1969, ganhou um concurso, cujo prêmio era uma viagem a Paris.

Ocidente e oriente

A temporada de oito meses na capital da moda, sem dinheiro e sem falar nada em francês, pode ter sido sofrida, mas sem dúvida também foi inspiradora - e fundamental. "O grande mérito de Yohji era justamente misturar o Ocidente com o Oriente", acrescenta João Braga.

Conceitual, por vezes estranha, a moda dele e de Rei, dois dos pilares mais fortes da escola japonesa (há ainda Kenzo, o pioneiro, e Issey Miyake, que também provocou alvoroço, sobretudo na indústria da beleza), segue os conceitos da arte povera, em que a ordem é tentar se aproximar do cotidiano usando materiais tão ordinários quanto terra e retalhos. O curioso é que, embora tanto a arte como a moda possam soar distantes da realidade - muitas coisas vistas nas passarelas, especialmente nas da Comme des Garçons, nunca ganharam de fato as ruas -, a tentativa é totalmente oposta: aproximar-se do humano. Quando Rei Kawakubo cria vestidos com corcundas e quadris imensos, ela não está querendo enfeiar a mulher, mas mexer com a nossa percepção de que a simetria, o símbolo da perfeição, é humana. "O que chamamos de realidade oculta a vida, e é a arte que vem tirar essa névoa dos nossos olhos", escreve France Grand no livro Comme des Garçons, lançado no Brasil pela editora Cosac Naify.

Mais alma que corpo

Assim como Yohji, Rei não enveredou de imediato para a moda. Também nascida em Tóquio, em 1942, cursou primeiro arte e literatura, o que ajuda a entender um pouco mais seu viés intelectual. "Eles vendiam mais alma do que corpo", diz João Braga. "O trabalho dos dois sempre foi mais conceito do que comércio, e isso numa época em que o culto à aparência era grande, vide a geração dos yuppies." Além das formas amplas, que iam contra o culto ao corpo dos 80’s, os tecidos não eram nada típicos e foram fundamentais na construção dessa nova estética.

Materiais como feltro e neoprene, além de muitas lavagens para conquistar o aspecto used, são alguns dos recursos utilizados por Yohji, que gosta, aliás, de inverter a ordem natural das coisas ao usar tecidos mais pesados em roupas femininas e bordados nas masculinas. Técnicas típicas do Japão, como o shibori e o yuzen, respondem pela cota oriental das criações.



Moda versus arte

E, como era de esperar, Yohji e Rei muitas vezes rompem a barreira entre a moda e a arte. Criam peças para a passarela que poderiam estar em museus (e que frequentemente vão parar neles) e colaboram com outras áreas criativas: Yohji desenhou figurinos para óperas e filmes, como Notebook of Cities and Clothes, de Wim Wenders, e Rei já criou uma revista, a Six, além de ter feito uma edição especial para a Visionaire, uma das publicações mais avant-garde da atualidade. "Só dá para dizer que moda é arte quando pensamos em criadores como eles ou outros gênios, como Balenciaga, Grès e Vionnet", pondera a estilista Clô Orozco, fã declarada de Yohji e Kawakubo e extremamente influenciada pelo trabalho dos dois. Que os 30 anos, comemorados em 2011, sejam um pretexto para a importância de eles voltarem à tona e inspirarem mais dobradinhas como a de Yohji com a Adidas (ele é o diretor criativo da Y-3) e de Rei com a H&M (2008).
A massa, afinal de contas, também quer comer biscoitos finos.






Fonte: Elle